sábado, 8 de outubro de 2011

Vygotsky e a Matemática: Teoria e Prática.

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   Acredito que não causará espanto a ninguém a afirmação de que o ensino de matemática no Brasil vai muito mal, já que a qualidade da nossa educação como um todo está mais que sofrível. Além de todos os problemas mais estruturais, amplamente debatidos no âmbito educacional e já bastante enfatizados nas diversas páginas deste blog, como, por exemplo, a falta de condições de trabalho, a inadequação dos currículos, a desvalorização da docência, etc., existem questões mais específicas, relativas à formação dos professores para lidar com cada área de conhecimento.
   Neste caso particular da matemática, o excelente artigo de Fávero e Neves (2009) evidencia lacunas na capacidade de professores e psicólogos para resolver e analisar problemas de matemática resolvidos por alunos. Estes que são profissionais que têm como parte da sua função justamente ensinar a resolver problemas e avaliar em que grau os estudantes conseguiram evoluir em relação ao domínio das competências de cálculo e raciocínio lógico!
   Face a este cenário, creio que, enquanto as "grandes" ações oriundas do poder público não fazem efeito,   qualquer pequena contribuição que possa proporcionar algum avanço na melhoria do ensino de matemática será bem vinda. Esta postagem, portanto, se enquadra neste segundo grupo.
   No primeiro vídeo (acima), apresentado pela professora Priscila Larocca, temos uma pequena síntese de algumas idéias chave do pensamento do psicólogo Lev Vygotsky, já discutidas em postagens anteriores desta mesma página (ver aqui, aqui e aqui). Neste vídeo, a professora retoma os conceitos de "interação social" (ver Colaço, 2004) e de "mediação semiótica" (ver Colaço e colegas, 2007), além de esclarecer sobre a importância dos "signos", da "linguagem" e dos "conceitos" na formação do raciocínio, buscando evidenciar as relações destes elementos da psicologia sócio-histórica para o ensino-aprendizagem da matemática no contexto escolar. 
   No decorrer da sua exposição, a professora Larocca oferece alguns princípios que devem ser assumidos por professores, não só no ensino de matemática, mas de qualquer outra disciplina curricular. A seguir, sintetizo estes princípios, tentando exemplificá-los com situações cotidianas de uma sala de aula, exibidas nos dois vídeos postados abaixo. As imagens foram gravadas em duas aulas de uma turma de terceira série, cuja professora estava ensinando o assunto "divisão".

1- Busque diversas formas de explicar (faça-o oralmente, lendo o enunciado escrito ou interpretando com suas palavras; dê exemplos; escreva esquemas no quadro;etc.);
   A professora Priscila Monteiro inicialmente lê o problema que está escrito no quadro (180 tortas para distribuir entre as 15 padarias), e, logo em seguida explica de outra maneira para toda a classe. Posteriormente, retoma o enunciado para os pequenos grupos, sempre que necessário. Vale ressaltar que muitos professores resistem a esta repetição, por considerar que os alunos devem sempre estar atentos e que esta atenção seria  tão necessária quanto suficiente para que eles memorizassem o que foi dito pelo professor de uma única vez.

2- Elaborar a linguagem paulatinamente (tendendo a um nível maior de abstração e generalização);
   Após relembrar com a turma que é permitido utilizar diversas estratégias de resolução baseadas em diferentes maneiras de representar, a professora enfatiza: terceira série já pode usar número! O número é certamente uma forma de representação que exige um grau de abstração maior, mas que a criança necessita percorrer um certo "caminho" até dominar o uso destes signos. A professora Priscila parece estar consciente disto, permitindo que os alunos pensem com os signos que já conseguem manipular. A partir do minuto 4:11, do primeiro vídeo, Priscila já tenta utilizar uma linguagem "mais matemática", mesclando com termos como "dar" e "faltam". No segundo vídeo, ela retoma as estratégias utilizadas pelas crianças para a resolução do problema das tortas e seleciona as mais avançadas para serem empregadas na solução do próximo problema.

3- Do familiar para o desconhecido (utilização dos conhecimentos prévios);
  Para uma melhor compreensão do enunciado do problema das tortas, a professora começa lançando mão de exemplos que as crianças conhecem (como se fossem lojas do Mc Donalds). Já no segundo problema, ela vai sugerir que os alunos utilizem as melhores estratégias conhecidas por eles na resolução do problema anterior. Esta é uma ação exemplar da docente, pois, quando se fala da importância da utilização dos conhecimentos prévios, alguns professores afirmam não ser possível acessá-los, pois não se pode fazer uma avaliação de todos os alunos antes de inciar cada assunto.

4- Ajudar o aluno durante o processo (intervir sobre a zona de desenvolvimento proximal);
   Nos dois vídeos abaixo, após a explicação para toda a turma,  a professora transita por toda a sala dialogando com os pequenos grupos, aproveitando os recursos de contagem já apropriados pelas crianças, questionando a adequação de algumas tentativas de solução, relembrando acordos prévios, instigando para que eles busquem, com os recursos que detêm, os melhores caminhos para chegar à resposta correta.

   Ao final do segundo vídeo, vale a pena escutar a professora Priscila falar sobre a distância entre as estratégias mais elementares utilizadas pelas crianças e a apropriação do algoritmo da divisão, que é o objetivo curricular. Toda a sua ação passa a ter sentido, quando vemos que ela está, coerentemente, mediando a internalização de um elemento cultural tão importante quanto a operação de dividir.





Multiplique seu conhecimento:


sábado, 25 de junho de 2011

A história do comportamento.







Pode parecer estranho, para aqueles que tiveram apenas um contato inicial com a obra do psicólogo russo Lev S. Vygotsky, que na página dedicada à matriz teórica de pensameto psicológico inaugurada por ele, apareça um longo documentário sobre a evolução do comportamento humano.
Esta postagem, entretanto, ainda que não possa levar a marca de um "documentário vygotskyano", no sentido de utilizar os seus conceitos ou fazer referências diretas às suas idéias, traz diversos elementos muito caros à discussão desse autor sobre os percursos filogenéticos, históricos e ontogenéticos que levaram os seres humanos à constituição daquilo que foi o objeto por excelência de toda a sua investigação, a saber: a constituição das chamadas  funções psicológicas superiores.
Dentre os referidos elementos, estão a confecção e utilização de ferramentas/instrumentos para potencializar a ação do homem sobre o mundo físico, possibilitando uma ação mediada que expande as capacidades naturais oferecidas pelo corpo; a utilização de símbolos, caracterizando um outro tipo de mediação, mais propriamente psicológica, modificando e sendo modificada pelas interações entre pares; a origem e importância da linguagem nas relações sociais e na constituição da própria subjetividade.
De fato, estes temas convergentes entre a obra de Vygotsky e o documentário aqui exibido - além de outros que destes derivam - são apresentados de maneira bastante didática, dinâmica, com riqueza de imagens, histórias, exemplos e depoimentos de cientistas consagrados como Steven Pinker (ver entrevista na página de Psicologia Cognitiva) e Richard Dawkins, criando a inusual possibilidade de atuar tanto sobre a zona de desenvolvimento proximal dos iniciantes quanto dos expertos em Vygotsky.
Para os que gostam não só de "ver os filmes", mas também de ler os livros, gostaria muito de recomendar um trabalho do Vygotsky, escrito em parceria com um dos seus mais importantes colaboradores, A. R. Luria. O livro se chama Estudos sobre a história do comportamento humano: o macaco, o primitivo e a criança, publicado pela editora Artes Médicas em 1996. Eu digo que gostaria por que este livro tem sua edição esgotada e não é muito fácil de ser encontrado, embora, obviamente, não seja impossível. As boas bibliotecas de psicologia devem contar com pelo menos um exemplar.
Nem tudo está perdido, entretanto, para aqueles ávidos por aprofundamento. Há um outro trabalho, que não foi escrito por Vygotsky, mas que, assim como o documentário, traz algumas das suas principais idéias e as desenvolve à luz da produção científica mais recente, que a precoce morte do psicólogo soviético o impediu de entrar em contato. O livro ao qual me refiro chama-se Origens culturais da aquisição do conhecimento humano, do Michael Tomasello, publicado pela editora Martins Fontes.
Espero que gostem tanto (ou mais) do documentário quanto eu e que ele estimule frutíferas discussões no espaço destinado aos comentários.






quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Alguns importantes conceitos vygotskyanos.



Se a única coisa que você conseguiu aprender sobre Vygotsky (ou Vigotski) é que ele criou o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (já "apelidada" de ZDP), vale a pena assistir este vídeo, para, talvez, relembrar outros conceitos importantes propostos por este psicólogo russo. Na sua breve existência, Vygotsky propôs uma perspectiva muito interessante para a compreensão da formação da subjetividade.
A partir de um aporte teórico marxista, interessou-se, no âmbito da psicologia, pela constituição das funções psicológicas superiores. Estas funções que nos separam dos outros animais, pois são tipicamente humanas. Numa perspectiva integradora, buscou compreender o comportamento humano como sendo constituído na confluência da filogênese, dos aspectos sócio-históricos, da ontogênese e da microgênese.
Dentro desse quadro de referência, o indivíduo, um humano em potencial ao nascer, é um organismo dotado de certas capacidades pela história evolutiva da espécie. Ao ser inserido, por meio do outro, no mundo de possibilidades da cultura, também reconstruída através da história, passa a internalizá-la. Esta internalização não é uma mera transferência do exterior para o interior, nem do inter-psicológico para o intra psicológico. Como o internalizado passa a mediar as internalizações, o sujeito vai se apropriando (tornando própria) da cultura de um modo singular, idiosincrático, pois nenhum sujeito - nem mesmo gêmeos idênticos - poderá refazer, na íntegra, o conjunto de interações e significados do outro. 
(O vídeo comete uns pequenos deslizes ao classificar Jean Piaget como psicanalista e indicar a morte de Vygotsky em 1933, quando foi em 1934)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Axé, escola, Axé!!!

Enquanto nosso modelo anacrônico de escola vive se queixando da falta de apoio da famíla ao processo de escolarização da sua prole, os movimentos sociais têm conseguido, por meio de novas fórmulas, novas estratégias, inserir no processo educacional, crianças e jovens que romperam precocemente com os vínculos familiares. Disso resulta inevitável a questão: será mesmo imprescindível a participação da família na educação escolar?
Não é demais lembrar que as imposições da vida contemporânea muitas vezes impedem uma participação mais ativa da família na educação escolar dos seus filhos. A falta de tempo, a falta de conhecimento, a falta de estratégias, fazem com que os pais ou responsáveis deleguem à escola essa função. A escola, por sua vez, alega que não pode arcar sozinha com essa responsabilidade. No meio desse fogo cruzado, estão os alunos, que ficam sem a educação de ambas as partes.
E assim, seguimos, preservando com afinco as desigualdades sociais, zelando para que nenhum estudante oriundo da famílias de baixa renda ouse ter conhecimentos suficientes para romper a linha que demarca a região que serve de base para sustentação da pirâmide social.
Vale a pena finalizar com uma citação do Vigotski, de conteúdo tão óbvio quanto negligenciado:
"Potencialmente, a criança contém muitas personalidades futuras; ela pode vir a ser isto ou aquilo. A educação produz a seleção social da personalidade externa. A partir do ser humano como biótipo, a educação, por meio da seleção, forma o ser humano como tipo social" (Vigotski, L. S. Psicologia Pedagógica. Porto Alegre, Artmed, 2003, pg 82)





domingo, 25 de abril de 2010

Infância inventada.

Será a "infância" uma categoria homogênea que abarca indiferenciadamente todos os modos humanos de experimentar os primeiros anos de vida? Ou será que temos que pensá-la a partir de múltiplas perspectivas, procurando sempre contextualizá-la segundo uma série de critérios tais como época, geografia, posição social, acesso a bens e direitos, etc., etc.?
Aquela infância feliz e poética, que costuma ser retratada pela mídia de interesse popular, tem lugar na memória de quantos dos nossos compatriotas neste instante? Quantos dos que hoje são adultos podem se lembrar do tempo em que brincavam despreocupadamente pelas ruas da vizinhança, corriam com seus coetâneos, jogavam pelo prazer de estar juntos, tomavam banho de chuva e se deliciavam com guloseimas as mais variadas? Quantos ainda têm gravado na mente e no corpo as cenas e os sentimentos comuns de eventos ocorridos em sala de aula e nos pátios das escolas? Quantos tiveram a oportunidade de frequentar uma escola? 
tiveram a alegria das recordações furtada pelo trabalho infantil. Ao apresentar um contraste bastante nítido entre dois contextos de desenvolvimento infantil,  o documentário postado a seguir faz com que pensemos sobre as questões acima  expostas e que observemos com maior atenção, como pede Vygotsky, a influência do meio e das condições materiais de existência na constituição das formas de interagir com o mundo e consigo mesmo.

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domingo, 18 de abril de 2010

Lev S. Vygotsky

Creio que poucos autores produziram um impacto tão significativo em suas áreas de conhecimento, tendo vivido menos de quarenta anos, quanto Vygotsky. Dizer que os elementos culturais com os quais um indivíduo interage ao longo do seu desenvolvimento, vão constituir a singularidade deste indivíduo, é proferir uma idéia de aceitação quase unânime. Todavia, este modo de entender a relação sujeito/meio apresentou-se como pensamento revolucionário nas primeiras décadas do século passado. As idéias de Vygotsky contribuíram e ainda contribuem para compreendermos a relação entre educação - no sentido mais amplo da palavra - e desenvolvimento, proporcionando-nos orientações promissoras para a tomada de decisões no âmbito pedagógico. Ninguém melhor que a professora Marta Kohl para apresentar as idéias deste autor soviético. Em vídeo, é só clicar logo abaixo, em livros é só procurar estes cujas fotos estão expostas, nas melhores livrarias do ramo.